4:18 am - quarta-feira agosto 7, 2013

Crimes e contradição do Bom Retiro

Joca Reiners Terron mostra evolução do bairro em seu novo romance

UBIRATAN BRASIL – O Estado de S.Paulo

Convidado pelo grupo Teatro da Vertigem para cuidar da dramaturgia do espetáculo Bom Retiro 958 metros, o escritor e tradutor Joca Reiners Terron passou a viver a rotina do bairro. Logo, surgiu a ideia de um romance que se concretizou em A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves (Companhia das Letras), cujo lançamento ocorre hoje à noite.

 

O escritor e tradutor Joca Reiners Terron  - Divulgação
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O escritor e tradutor Joca Reiners Terron

Trata-se de um belo e bem articulado romance com um tom que oscila entre o social e o mistério – uma estranha figura, que habita um casarão do bairro, sai raramente (e apenas à noite), vestindo galochas e uma capa de chuva vermelha. Suas intenções não são sabidas, assim como sua idade real.

Em torno disso, Terron apresenta personagens (como um taxista fã de música clássica, um escrivão insone que trata do pai doente, uma bióloga com pretensões televisivas) cuja trajetória ajuda a contar a história de um bairro marcado por gerações de judeus, coreanos e bolivianos. Sobre o romance, o escritor respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

A trama do livro surgiu depois de ter iniciado sua parceria com o Teatro da Vertigem?

O único aspecto de Bom Retiro 958 Metros em comum com meu livro é parte do cenário, pois ambos se passam no Bom Retiro. Mesmo assim, há outras regiões da cidade no livro, como a Cracolândia e o Zoo. Durante os preparativos para a peça, em 2011, passei três meses ensaiando com o Vertigem no Bom Retiro das 19 h às 23h30. Pelas manhãs, ao longo de um desses meses, escrevi o romance. Creio que o ambiente do bairro foi fundamental para conceber a história, que foi disparada por notícias de jornal que li na época. O livro está dedicado ao grupo em agradecimento por ter permitido que eu mergulhasse naquele clima.

Qual aspecto do Bom Retiro que mais o atraiu como criador?

É um lugar limítrofe, com toda aquela variedade étnica, assim como meu trabalho com a ficção, que mistura gêneros. Senti forte identificação pessoal, pois me sinto deslocado na cidade, no País, no mundo. Sou descendente de imigrantes espanhóis e alemães, minha família vagou boa parte da vida e agora parece tarde demais para encontrar paradeiro fixo. No fundo, sou igual aos bolivianos, coreanos e judeus do Bom Retiro.

O livro trata das diferentes formas de brutalização. O que o atraiu nisso?

Não sei dizer. No entanto, as diferentes formas de tratamento dadas aos animais domésticos e às pessoas desprovidas de tudo a que cotidianamente assistimos nas ruas de São Paulo propõem uma questão moral essencial. O livro não responde nada, mas procura tocar essa questão.

Também há a trama de suspense, ao estilo Poe, Lovecraft. Como foi desenvolver esse processo, ou seja, uma escrita que prende o leitor de diferentes formas?

Escrevi livremente, sem me ater às regras do romance policial ou de suspense. Creio que a maior dificuldade para mim é escrever de forma direta, procurando evitar imagens mais literárias. Mas salpiquei a narrativa com alguns mistérios, creio que em número suficiente para o leitor desejar chegar ao final.

Acredita que o mal é um aliado da literatura?

Sim, existe todo um veio bastante rico da literatura que investiga o mal, que vive em permanente metamorfose. De Baudelaire a Raymond Chandler, passando por toda a não ficção que aborda o Holocausto e as ditaduras latino-americanas. Como as manifestações do mal sempre inventam novos disfarces, não falta assunto aos escritores.

Você acredita em um parentesco entre a literatura de suspense e a psicanálise?

Certamente, existem semelhanças em relação aos processos investigativos, porém métodos terapêuticos em geral buscam a cura ou pelo menos reconfortar o paciente, enquanto a verdadeira literatura deve enfiar dois dedos de unhas bem pontudas nos olhos do leitor. A produção cultural se especializou em fornecer facilidades e abrigo ao seu público, mas o escritor não tem público e sim leitores, e dos leitores espera-se que estejam sempre com os olhos bem abertos.

Leonardo Sciascia usava o suspense como veículo para falar sobre questões de identidade.

Sciascia é um dos grandes que anda meio esquecido. Seu livro que investiga as atas da morte do escritor francês Raymond Roussel é um dos melhores livros policiais que li, sem ser um livro policial. Questões da alienação e da investigação da identidade percorrem toda a minha ficção. Essa insistência temática reflete meu próprio comportamento: não me identifico muito com o atual estado de coisas, sou cético em relação a qualquer melhoria. Sou um deslocado, e meus livros.

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